Contos

Jesus no piso
Por: Mário Lourenço

Ela sentia medo da felicidade. Aos oitenta e oito anos achava não ter mais direito a um sentimento tão jovem como esse. Mas o fato é que os olhos miúdos, escondidos no rosto encarquilhado, resplandeciam de uma forma especial, que há muito não se via. Era o dia de seu aniversário. Quase nove décadas de vida.
Dona Adelaide estava ansiosa pela chegada de Maria, que saíra de casa ainda bem cedo. Todos os anos, no dia de seu aniversário, a velhinha esperava pelo presente que a filha traria do mesmo jeito que uma criança. Ela sempre se decepcionava; Maria nunca teve muito jeito para escolher presentes. Porém, a esperança continuava. Talvez aquele fosse um ano especial e, finalmente, um presente surpreendente chegasse às suas velhas, cansadas e trêmulas mãos.
Logo a pobre dona Adelaide voltaria à mesma apatia que lhe era tão comum de uns anos pra cá. Descobriria que a filha não se lembrou de seu aniversário e que a única coisa que lhe traria felicidade era mesmo a novela que voltaria a ser exibida depois de muitos anos.
Quando dona Adelaide acompanhou o tal folhetim pela primeira vez, já não era nenhuma menina, mas ainda tinha muita disposição. Essas dores tão familiares de hoje não existiam. Todas essas dificuldades de locomoção, o cálculo de cada passo e mais uma infinidade de incômodos que a idade trás consigo, eram inimagináveis aquela altura.
A tal novela era mesmo muito boa; devo confessar. Os seres humanos são muito criativos e isso me encanta. Acho essas encenações de emoções muito interessantes. Essa capacidade de representar a própria vida, de simular situações é incrível e necessária. Se eles fossem obrigados a conviver somente com a verdade o tempo todo, sofreriam demais. Um pouco de sonho, de ilusão, de ficção, é fundamental.
Dona Adelaide passa uma imagem muito respeitável quando se coloca dessa forma, sentada em sua poltrona bege, mantendo as mãos sobre a bengala de madeira com cabo de prata – muita bonita, diga-se de passagem. Não sei explicar o porquê de essa postura me encantar tanto. Passa-me um ar de sabedoria; é, acho que é isso.
Seu rosto ficou triste, os olhos ainda mais escondidos, e o brilho que ostentavam, de repente se foi.   Pensamentos; são eles, tenho certeza. Está pensando na vida, e toda vez que o faz, afunda na desilusão. Os anos se passaram e agora ela está aqui, tão próxima do fim e cheia de dúvidas quanto ao acerto na escolha da maneira como os gastou.
Todas as pessoas passam por isso; é inevitável. Não importa se o sujeito foi um completo alienado. Quando se vê diante da morte, quando a simples ideia do fim se coloca diante de seus olhos, ele pensa num sentido para a vida. Mais uma particularidade encantadora dos seres humanos. Os outros animais simplesmente vivem, seguem seus instintos. Eles não. Precisam de um sentido, de uma razão para estarem aqui. Eu amo essa busca. Ela me faz acreditar que valeu a pena. 
Agora ela sente vontade de ir ao banheiro. Se fosse jovem, saltava do sofá e em dois segundos estava no vaso sanitário. Mas nessa idade, levará alguns bons minutos até conseguir levantar.
Fraqueza; outra coisa encantadora. Os mesmos seres capazes de reflexões tão profundas sobre sua existência se vêem subjugados por impulsos irrefreáveis, necessidades fisiológicas que precisam ser satisfeitas.
Na maioria das vezes eles não enxergam a beleza por trás desses momentos no banheiro. Parecem ser instantes patéticos e humilhantes, mas na verdade esses são alguns dos poucos instantes capazes de igualar a todos. Nessa hora todos são iguais; não importa a cor da pele, nem a classe social ou o nível cultural.
A simpática senhora brigava muito com a filha pelo fato de tratá-la como uma criança, mas nessas horas via que Maria tinha razão; todo cuidado era pouco. O tempo vai tirando as forças do corpo.
Foi difícil, como sempre é, mas impulsionada pelo desejo de voltar logo à frente da televisão, dona Adelaide chegou ao banheiro em tempo recorde. Encostou a bengala num canto próximo a porta e passou a apoiar-se nas barras de alumínio postas nas paredes a mando de sua filha.
Enquanto satisfazia suas necessidades fisiológicas, observou uma mancha estranha num dos pisos. Era absurdo o que via; mas via. Lá estava ele, olhando diretamente para ela. A imagem era clara, nítida, não deixava espaço para dúvidas.
- Jesus Cristo! – gritou ela.
Seu sangue gelou. Lembrou-se de notícias no telejornal da noite sobre supostas imagens sagradas que surgiram em diversas localidades, aparentemente por milagre, e que viraram em pouco tempo local de peregrinação de fiéis. Imaginou seu banheiro transformado numa espécie de santuário, no qual as pessoas viriam do mundo todo para rezar olhando para o Jesus no piso.
As pessoas precisam tanto de imagens, relíquias sagradas, coisas para as quais se direcionarem nos momentos de busca por Deus. Não entendo a razão disso. Elas se dirigem para esses objetos numa demonstração de fé, mas não percebem que se trata exatamente do contrário, pois a fé independe e está muito além de qualquer objeto.
Confesso que a imagem era bonita. A emoção tomou conta de dona Adelaide. Seus olhos encheram d’água. Depois veio a vergonha, afinal de contas, estava urinando. Ela não tinha motivos para ficar constrangida, mas ficou.
Refeita do susto, tratou de recompor-se. Ajeitou o vestido rosa que ganhara da filha, de tecido leve que caia muito bem nesses dias de calor intenso. Lavou as mãos várias vezes e teve uma ideia absurda: resolveu tocar e beijar a imagem.
A coluna foi avisada de imediato do propósito da velhinha e tratou de mostrar que estava ali e que, acima de tudo, não era a mesma dos tempos de juventude; poderia até se dobrar, mas talvez não voltasse mais ao lugar de origem.
Era devota desde que se entendia por gente. A mãe repetia sempre a mesma história. Dizia para a pequena Adelaide que ela nascera antes do tempo certo, muito frágil, que tivera uma série de complicações de saúde e que só sobrevivera graças a uma promessa. A menina nunca mais se esqueceu da história, nem dos olhos úmidos e da voz emocionada da mãe toda vez que a contava.
Ajoelhou-se lentamente, porém sem hesitação. Sabia o que estava fazendo. Mais próxima da imagem, maior a emoção.
Ela franziu o cenho de forma engraçada por alguns instantes. Estava tentando se lembrar daquela imperfeição no piso. Concluiu que ela havia surgido repentinamente. Não restava dúvida de que se tratava de um sinal divino.
Conseguia ouvir os estalos de suas vértebras. Na verdade os estalos não existiram; a não ser dentro da cabeça de dona Adelaide. A idade também tem dessas coisas; os velhos ouvem sons que ninguém mais ouve.
Tocou suavemente a imagem, com toda a reverência que achava que ela exigia. O beijo foi bem mais difícil. Lembrou-se de outra oportunidade em que fez esse mesmo gesto. O pé direito buscou o degrau, não encontrou e ela se estatelou no chão, beijou-o de maneira violenta, a contragosto, bem diferente do beijo carinhoso e respeitoso de agora. Maria gritou ao vê-la daquela forma, estirada no solo. A fraqueza dos músculos e dos ossos trazida pelo cansaço do tempo multiplica enormemente o impacto de qualquer queda, por mais insignificante que ela aparente ser.
Ouviria o grito de Maria novamente em poucos instantes. Dessa vez não viria dos labirintos de sua memória, mas da porta do banheiro, que se abriu enquanto seus lábios tocavam a imagem no piso.
- O que é que a senhora está fazendo? – disse a mulher de olhos vivos e cabelo desalinhado.
Dona Adelaide sorriu com doçura e apontou para o chão.
- Está vendo? – perguntou para a filha.
- Vendo o que? – retorquiu Maria, ressabiada.
O descoramento da face, que já era acentuado por natureza, aumentou, bem como a desconfiança de Maria a respeito da sanidade mental da mãe.
A senhora sorridente prostrada ao chão, apontou para a mancha no piso.
- Jesus Cristo!
- O que? – perguntou a filha ainda mais espantada com a situação.
- É a imagem dele aqui no piso! – dona Adelaide começava a se levantar – Essa imagem não existia, apareceu hoje!
Percebendo a dificuldade da mãe em se levantar, Maria segurou a sua mão esquerda e a ajudou a se por de pé. A mulher estava gelada e tremia. Olhou para a mancha apontada por dona Adelaide e constatou que era, de fato, só uma mancha.
- Eu pensei que a senhora estivesse passando mal!
- Eu estou ótima, Maria.
- Venha, sente-se no sofá.
A senhora, espantada com a indiferença da filha, questionou:
- Você não vai nem tocá-lo? Perdeu sua fé?
A mulher, inconformada com a situação, defendeu-se:
- Sou tão devota quanto a senhora, mas tudo tem limite, mamãe! – respirou fundo e prosseguiu – Aquilo é só uma mancha; nada mais.
- Nunca mais diga isso! – berrou dona Adelaide, indignada – Este pisto está aqui há pelo menos uns dez anos e essa imagem não existia!
Maria desistiu de convencer a mãe de que aquilo era só uma mancha. Deixou a fascinada senhora olhando o Jesus que ela dizia ver no piso. Algum tempo depois dona Adelaide saiu do banheiro com sua bengala e dirigiu-se ao portão de casa. Maria, preocupada, foi atrás dela.
- Onde é que a senhora vai?
A velha virou-se lentamente e com o rosto fechado e tom de voz elevado respondeu a pergunta.
- Vou à igreja!
- Agora? Fazer o que lá?
- Agradecer.
- Agradecer pelo que? Por uma mancha no seu piso?
- Se você não acredita, tudo bem; é um direito seu. Mas pelo menos respeite o que para mim é um sinal de Deus.
A preocupação de Maria não diminuiu, então propôs a mãe a sua companhia.
- Não! - vociferou dona Adelaide – Fique aí! Se não acredita, não precisa vir comigo. Você se esqueceu do meu aniversário, mas Deus não!
A anciã costumava sair sozinha de vez em quando. Demorava a chegar, devido a enorme dificuldade em cada passo, mas chegava. Maria, porém, mantinha-se receosa, pois uma das razões em dar à velha mãe a liberdade de ficar e de sair sozinha, era justamente o fato de achá-la bastante lúcida apesar da idade. Mas nos últimos tempos dona Adelaide vinha apresentado um comportamento atípico, dizendo e fazendo coisas que começavam a deixar a filha com dúvidas em relação a essa tal lucidez que possuía. Vê-la ajoelhada beijando o chão do banheiro por ter visto nele uma suposta imagem de Jesus Cristo, foi para Maria mais uma prova de que os anos começavam a pesar também sobre a mente de sua amada mãe.
Aquelas palavras doeram na alma de Maria. Havia mesmo esquecido do aniversário de sua amada mãe. Fez enorme esforço para se lembrar de quantos anos dona Adelaide estava completando.
- Mil novecentos e vinte e cinco com cinco mil novecentos e trinta... – fazia as contas em voz alta -... Com setenta dá dois mil; sessenta e cinco. Mais dez... – agora entendo porque Maria foi professora de História -... Oitenta e cinco; com três, oitenta e oito.
De qualquer forma, acalmou-se e não quis questioná-la; se queria ir desacompanhada a igreja, que fosse. Aguardaria sua volta e conversaria com ela mais calmamente sobre o ocorrido. Pediria desculpas pelo esquecimento.
Além disso, precisava questionar Ângela, a diarista, sobre aquela mancha no piso do banheiro. Percebeu que havia outras, um pouco menores, espalhadas por todo o chão. Achava que a moça responsável pela limpeza da casa lhe devia uma boa explicação.  Assim que ela chegasse com aquele sorriso largo e o “bom dia” de sempre, seria questionada sobre o assunto, afinal era ela quem comprava os produtos de limpeza toda a semana.
Maria sentou-se no lugar onde a mãe costumava se acomodar. Um sentimento bastante aflitivo lhe apertava o coração. Ela não gostava do que sentia, mas sabia que era algo impossível de se controlar. Cuidar de uma pessoa de idade avançada não é nada fácil e, às vezes, mesmo que se ame muito essa pessoa, é normal sentir um pouco de raiva e vontade dela e vontade de deixá-la.
Sua irmã, Magda, era casada e elas não se davam muito bem. Dona Adelaide nunca gostou muito do genro e a filha acabou se distanciando aos poucos. Aparecia de vez em quando para ver se a mãe ainda estava viva, ficava por alguns minutos e depois ia embora da mesma forma chegava; sem muito alarde.
Maria, por sua vez, não se casou, e acabou ficando com a tarefa de cuidar da mãe depois que o pai se foi, vítima daquele câncer, que ela dizia ser maldito.
Nessas horas ela sempre se lembrava de Gilberto, sua grande paixão da juventude. Ela devia ter se casado com ele, era um bom homem.
Maria afundou-se no trabalho e esqueceu-se de amar, esqueceu-se de viver. Foi deixando a vida para depois e quando deu por si, já havia perdido tempo demais. Foi uma ótima profissional; isso é fato. Uma professora das melhores. Mas devia ter se divertido um pouco mais, perdido alguns minutos rindo de qualquer coisa; sonhado, errado e, acima de tudo, não devia ter acreditado no pai que dizia que os homens não prestavam.
Agora tudo o que tinha era a mãe. A velhinha era seu maior problema e ao mesmo tempo sua maior - e única - alegria. Ter uma única fonte de alegria na vida é algo muito perigoso.
A igreja não ficava longe de casa. Dona Adelaide só precisava dobrar a esquerda, chegando assim à rua de cima e seguir reto por mais três quarteirões que já estava lá. Porém, devido à fragilidade das pernas, preferia ir de ônibus.
Sentada a espera do transporte público, não conseguia parar de pensar na imagem no piso do banheiro. Estava um pouco mais calma, mas ainda emocionada. Precisava ir até a casa de Deus, ficar lá por alguns minutos, rezar, agradecer, mostrar que havia entendido o recado.
Dona Adelaide estava com o ânimo renovado. O brilho dos olhos voltou. Sentia-se próxima de um recomeço – mesmo que isso soe irônico quando se pensa que ela estava completando oitenta anos. Apesar de estar no fim da vida, ainda estava viva; ainda precisava buscar a Deus. Essa era a mensagem, que para ela ficou muito clara. Talvez não para a filha, mas para ela, sim.
No curto trajeto olhava pela janela atentamente, observando cada detalhe da movimentada avenida que tão bem conhecia. O veículo estava vazio, naquele horário, poucas pessoas dirigiam-se para o bairro. Dona Adelaide sentou num dos bancos reservados a idosos, gestantes e deficientes físicos. Ficava bem perto da porta, facilitando a descida que já era, por natureza, extremamente difícil para ela.
Os olhos atentos perceberam a proximidade da igreja. A mão trêmula procurou a campainha. O ônibus parou de maneira violenta. Dois jovens parados nos degraus próximos da porta saltaram para fora com grande desenvoltura. Ela os observou assustada, levantou com toda a sua lentidão, para desespero do cobrador e do motorista, e foi planejando cada passo até chegar a calçada esburacada.
Do lado de fora, para aumentar a angústia do atrasado condutor, um cadeirante se aproximou da outra porta, que estava fechada. O motorista teve de cumprir sua obrigação. Pegou o controle remoto que acionava os dispositivos capazes de abaixar os degraus para que o sujeito subisse e depois alçá-lo a altura do piso do veículo, permitindo que se acomodasse no local destinado a pessoas com cadeiras de rodas. Todo o processo levava certo tempo; os motoristas e cobradores, mesmo se esforçando para não deixar transparecer, odiavam cumpri-lo.
Dona Adelaide, por sua vez, olhou para o jovem homem que não podia contar com as próprias pernas e se compadeceu dele. O sujeito percebeu os olhos de pena e fechou o cenho, pois compaixão era tudo de que ele não precisava.
A velha senhora então retomou seu caminho; afinal de contas, precisava atravessar a estreita avenida para chegar à igreja do outro lado. Retomando o foco, apoiou sua bengala no solo e recomeçou seus passos de tartaruga.
Passou por detrás do ônibus, que permanecia parado devido à inépcia do motorista em manipular o dispositivo que movimentava os degraus.
Seus velhos olhos contemplaram a grandiosa e lauta igreja. Eram mais de quarenta anos frequentando aquele local, mas a emoção que lhe tomava ao chegar lá se renovava a cada dia. Lembrava-se do templo ainda modesto, com capacidade para receber menos da metade dos fiéis que passou a comportar depois da reforma e ampliação.
O coração, que já vinha carregado de emoção com a lembrança da imagem do Filho de Deus no piso do banheiro, ficou ainda mais acelerado quando se deparou com o magnífico templo.
Uma igreja suntuosa é capaz de impressionar a qualquer um, até a quem não acredita em Deus. Ela só não impressiona àquele que é a razão de sua existência, pois ele entra em qualquer ambiente onde o queiram de verdade, independente da condição das instalações.
Tomada por aquele sentimento profundo e sincero de devoção, dona Adelaide acelerou o passo. Um estranho barulho de motor, uma derrapada, gritos; ela e um sujeito se estatelando no asfalto.
O motoqueiro levantou-se rapidamente, mancando da perna direita, com o braço ralado e dando explicações aos transeuntes que começavam a se aglomerar em volta da senhora de cabelos brancos, inerte no chão.
A bengala se partiu ao meio. A impérvia avenida ficou ainda mais congestionada; motoristas que queriam ir, outros que queriam vir, pessoas que desejam ver e ela lá no meio, deitada sentindo a vida ir embora.
Dor? É claro que doeu. A dor provocada pelo impacto e pela queda uniu-se aquelas muitas que já a acompanhavam há décadas. Foi tudo tão rápido. Tinha na mente a imagem do piso, que sumiu de repente; ela não viu mais nada. Depois abriu os olhos e percebeu que até as pálpebras doíam. 
Dor? Eu sei o que é isso. Lembro-me bem da sensação. Então posso dizer uma coisa com conhecimento de causa. Chega um momento em dói tanto, que já nem se sente nada. Não sei se fui claro, mas é que a dor se torna tão intensa em alguns casos que o corpo nem é capaz de senti-la.
Um sujeito fazia perguntas que dona Adelaide não conseguia entender. Ela achou engraçado ver a boca do homem mexendo devagar e não compreender o que ele falava.
Aí se lembrou de Jesus, o seu Jesus. Aquele do piso. O Cristo hollywoodiano, com seus cabelos lisos e longos, sua pele branca e seus olhos claros. Devo admitir que o sujeito que criou essa imagem foi muito gentil.
Dona Adelaide me viu no piso e agora, ali estatelada no asfalto, percebeu que me veria de verdade. Ela, enfim, entendeu, e se acalmou.
Ângela, a diarista, também pensou em mim enquanto tomava uma senhora bronca de sua patroa por ter comprado um produto de limpeza que manchou o piso do banheiro. Pensar em mim a deixou mais calma diante da fúria de Maria e certa de que tudo ficaria bem no fim das contas.
Ângela se acalmou, mas ainda tentava entender que força era aquela que levou suas mãos ao produto de limpeza vendido por um simpático senhor, carregado na traseira de um carro velho que passou pela rua da casa de sua patroa. Estava certa de que da próxima vez iria direto ao supermercado e compraria o produto de sempre, não se arriscaria mais em experiências que poderiam lhe custar o emprego.
Na verdade a tal força era a mesma que fez Maria se sentar na poltrona ao invés de ir atrás da mãe que saía de casa para ir à igreja. A mesma que levou as mãos de Judas às moedas de prata e seus lábios ao meu rosto há muito tempo atrás.
Mas é bom que os seres humanos não entendam essa força, pois se entenderem, eles perderão a graça, e enquanto não entenderem, eles continuarão me encantando.

 Fim!

Este texto é de um amigo meu, Mario Lourenço, que lida maravilhosamente com as palavras. Li, gostei, pedi autorização  e ele  que me autorizou publicar no meu blog. Obrigada,  Mario!

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